
A propósito de uma conhecida que brinda os demais à sua volta com a notícia de uma tão querida gravidez, ecoam os habituais comentários, enfadonhos de tão previsíveis: “Aquele enjoo de há dois meses atrás denunciou-a logo.” “Eu sabia! Ela andava mais rosada e com um ar meio comprometido...” “Opá, ela a mim nunca me enganou. Antes de vocês sequer sonharem já eu desconfiava.” “Aquelas calças de tecido mole... Achei estranho.” “É menina, de certeza. Tem a barriga tão larga.” É de ter em conta que a futura mamã só está grávida de 3 meses e sempre teve o estômago dilatado. Adoro esta desculpa para o ter BARRIGA! Ainda dou de barato os comentários pelo facto de nunca ter sido mãe e de ser completamente desatenta aos, pelos vistos, tão óbvios sinais exteriores. Até que surge o derradeiro... “Eu já sabia. Um dia via-no metro e ela ia a coxear e agarrada à barriga. No início até pensei que tivesse feito um aborto!” Este, por si só, já é genial. É o exemplo perfeito de como se podia gerar um boato extremamente infeliz. Mas fiquei a saber que uma mulher coxa e agarrada à barriga é sintomático de aborto. Fantástico. Não obstante, ela remata: “Mas um aborto não podia ser. ELA ADORA CRIANÇAS!”... Mulheres, quem aborta não gosta de crianças! Fiquei sinceramente desiludida com a facilidade com que um ser humano profere tamanho egoísmo. Não me imagino capaz de tal coisa. Julgar alguém com este ânimo leve por uma decisão que será certamente difícil de tomar. A minha cara deve ter sofrido uma transformação tal de espanto que alguém ao meu lado encolheu os ombros e disse: “Não te dês ao trabalho de comentar que não vale a pena.” E não dei. Esperança... Que as pessoas aprendam a ver para além do próprio umbigo. Esperança...
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