Hoje almocei sózinha. Ultimamente faço-o com alguma regularidade. Perdi a paciência para indagar diariamente os planos dos meus colegas para o almoço e ter que decidir qual deles me atrai mais, sendo que qualquer das hipóteses tem pouco ou nada de novo. O mal não é deles. É meu. Ou de ninguém. Então opto por almoçar sózinha, como fiz enquanto escrevia este post. Quando almoço sózinha faço-o sempre no mesmo restaurante. Não é o meu preferido mas é imediatamente ao lado do escritório e é o único onde não me incomoda almoçar sózinha. Este dito restaurante tem particularidades, no mínimo interessantes, que me fazem questionar a minha assídua presença. Tem como principal atracção uma televisão, pequena para o efeito, invariavelmente ligada na TVI. Sendo que a minha hora de almoço tem início ao meio dia e meia, invariavelmente o programa no ar é um daqueles que preenchem as manhãs de sei-lá-bem quantas pessoas (prefiro viver na ilusão de serem poucas), penso que apresentado pelo Goucha. Não percebendo eu o porquê da selecção minuciosa, percebo ainda menos o porquê de todos os que almoçam sózinhos fazerem questão de ficar estrategicamente sentados em frente à televisão. Eu inclusivé. Ok, eu sou pitosga e não costumo levar os óculos para o almoço, mas fico efectivamente de frente para a tv. É certo que estou a escrever e não a ver o fabulástico programa mas... à minha volta, as pessoas estão cideradas! A ouvir estórias desgraçadinhas, mães de estrelas cadentes a comentarem a vida de outras pseudo-estrelas, não percebo. Mas prometo ficar atenta. Depois há o empregado de mesa. Eternamente descontente com a posição que ocupa. Cumprimento-o à minha chegada e pergunto, como sempre, “como estás?”. Sendo que a minha pergunta merece obviamente a verdade como resposta, é exactamente isso que ele faz. E responde-me sempre a verdade. Normalmente sob a forma de um redondo “estou mal”. Mas este rapaz nunca está bem? E quem lhe disse que me interesso? Que me interessa que tenha feito uma tatuagem numa omoplata e tenciona fazer outra, exactamente igual, na omoplata oposta? Tentei dizer-lhe que um diabinho sentado numa lua me parecia pouco feliz. Mas dois? Haja falta de gosto. A questão é que, além de pitosga, tenho a mania que sou boazinha e tento sempre que ele pense que estou interessada na conversa. Depois temos um dos sócios que me pergunta sempre porque é que não bebo uma imperial. Irra! Mas é suposto, por ventura? Desde que trocou os restos dentários pela placa, passa a vida a sorrir. Toda a gente sabe que é placa. A descrição não seria a melhor política? Deliciam-me os cafés com cheirinho, os “xiripitis” e as sandes de panado com um panaché. Porquê panaché? Não é cerveja. Não é gasosa. É uma mistura deslambida que não capto. Não vou obviamente comentar a “sande” de panado. Todo o background do balcão do restaurante é cuidadosamente forrado com uma disposição de garrafas, copos e pastilhas elásticas. Falta uma mão feminina, claro. Os 3 donos têm o perfil ideal do homem à antiga, bruto, o mais práctico possível, sem qualquer preocupação com qualquer tipo de decor. E não é que continuo a ir lá?4.27.2006
almoçar sózinha
Hoje almocei sózinha. Ultimamente faço-o com alguma regularidade. Perdi a paciência para indagar diariamente os planos dos meus colegas para o almoço e ter que decidir qual deles me atrai mais, sendo que qualquer das hipóteses tem pouco ou nada de novo. O mal não é deles. É meu. Ou de ninguém. Então opto por almoçar sózinha, como fiz enquanto escrevia este post. Quando almoço sózinha faço-o sempre no mesmo restaurante. Não é o meu preferido mas é imediatamente ao lado do escritório e é o único onde não me incomoda almoçar sózinha. Este dito restaurante tem particularidades, no mínimo interessantes, que me fazem questionar a minha assídua presença. Tem como principal atracção uma televisão, pequena para o efeito, invariavelmente ligada na TVI. Sendo que a minha hora de almoço tem início ao meio dia e meia, invariavelmente o programa no ar é um daqueles que preenchem as manhãs de sei-lá-bem quantas pessoas (prefiro viver na ilusão de serem poucas), penso que apresentado pelo Goucha. Não percebendo eu o porquê da selecção minuciosa, percebo ainda menos o porquê de todos os que almoçam sózinhos fazerem questão de ficar estrategicamente sentados em frente à televisão. Eu inclusivé. Ok, eu sou pitosga e não costumo levar os óculos para o almoço, mas fico efectivamente de frente para a tv. É certo que estou a escrever e não a ver o fabulástico programa mas... à minha volta, as pessoas estão cideradas! A ouvir estórias desgraçadinhas, mães de estrelas cadentes a comentarem a vida de outras pseudo-estrelas, não percebo. Mas prometo ficar atenta. Depois há o empregado de mesa. Eternamente descontente com a posição que ocupa. Cumprimento-o à minha chegada e pergunto, como sempre, “como estás?”. Sendo que a minha pergunta merece obviamente a verdade como resposta, é exactamente isso que ele faz. E responde-me sempre a verdade. Normalmente sob a forma de um redondo “estou mal”. Mas este rapaz nunca está bem? E quem lhe disse que me interesso? Que me interessa que tenha feito uma tatuagem numa omoplata e tenciona fazer outra, exactamente igual, na omoplata oposta? Tentei dizer-lhe que um diabinho sentado numa lua me parecia pouco feliz. Mas dois? Haja falta de gosto. A questão é que, além de pitosga, tenho a mania que sou boazinha e tento sempre que ele pense que estou interessada na conversa. Depois temos um dos sócios que me pergunta sempre porque é que não bebo uma imperial. Irra! Mas é suposto, por ventura? Desde que trocou os restos dentários pela placa, passa a vida a sorrir. Toda a gente sabe que é placa. A descrição não seria a melhor política? Deliciam-me os cafés com cheirinho, os “xiripitis” e as sandes de panado com um panaché. Porquê panaché? Não é cerveja. Não é gasosa. É uma mistura deslambida que não capto. Não vou obviamente comentar a “sande” de panado. Todo o background do balcão do restaurante é cuidadosamente forrado com uma disposição de garrafas, copos e pastilhas elásticas. Falta uma mão feminina, claro. Os 3 donos têm o perfil ideal do homem à antiga, bruto, o mais práctico possível, sem qualquer preocupação com qualquer tipo de decor. E não é que continuo a ir lá?na boca do sr. crocodilo
Primeiro não reagi mal à notícia. Depois quis ficar sózinha. Depois caí em mim. Estava a fervilhar... Tentei conter-me. Durante, seguramente, uns 30 segundos. Depois decidi que podia rebentar. E não é que...? Tinha uma pergunta a fazer. Simples. Mas sabia que estava a meter a cabeça na boca do sr. crocodilo. Ainda assim perguntei. A resposta foi evasiva, mas suficientemente clara para me fazer ir dar uma volta de carro durante umas horas, a meio da noite. Repensei todo um passado, um presente tranquilo e um futuro que eu julgava seguro, ainda que não tendo esse direito. E como que por magia, em pouco mais de uma semana, vivi um bocadinho de tudo o que tinha vivido durante anos da minha vida. Medo, insegurança, amor, esperança, desespero, paixão, calor, vontade, respeito, carinho, acreditei, considerei, quis, dei de mim, fiz, aconteci. Recebi o que tinha a receber. O que tive vontade de receber. E aprendi. Que vale a pena pôr a cabeça na boca do sr. crocodilo. Porque o que não nos mata fortalece-nos. Porque o que hoje nos magoa, amanhã ajuda-nos a seguir em frente. E pouco mais de uma semana depois, sou seguramente uma pessoa mais forte. E não só porque entretanto comi tudo o que me apeteceu. :D confiança
Falou-se de confiança ao som de um vinho tinto qualquer. E falta. A confiança. A capacidade de acreditar que podemos viver uma “relação” sem sermos assaltados pelo receio do que se passa atrás dos nossos olhos. Sou fruto de uma geração que mantinha casamentos a todo o custo. Sou a geração de transição. Não sei bem do quê e, muito menos, para o quê. Sou a geração do descontentamento. Da busca constante de um algo melhor que nem nós sabemos se existe. Mas procuramos. Prescindimos do respeito, da tão prometida fidelidade, da sanidade mental. E buscamos a desordem. Qualquer coisa que nos faça acreditar que há mais. Mas mais do que quê? Mais. Simplesmente mais. E esquecemo-nos que esse mais se converte em menos com a mesma facilidade que se converteu em situações anteriores. E fazer o quê? Viver a insatisfação do presente ou procurar o mais de um futuro que muito provavelmente pode ser a insatisfação de um presente ainda por vir? Tenho uma visão eventualmente retrógrada, ou não, sobre quanto devemos investir numa relação. É quase simples. É não abandonar o barco à primeira onda que nos salpica. É nadar com todas as forças para não afundar. São duas pessoas a remar no mesmo sentido. É o valorizar o que temos sem valorizar constantemente o que nos falta. Nada nos garante que resulte. Nada nos garante que não. Mas faz sentido. Enquanto acreditarmos.4.21.2006
ai ai ai
4.19.2006
4.17.2006
a minha páscoa
É bom esquecer o velho conceito de Páscoa e almoçar. Simplesmente almoçar. Perdoem-me os meus pais, os padres do colégio onde estudei tantos anos para ser uma menina bem comportada e católica, obviamente, mas sou ateia. E a pressão de ter que fazer do dia de Páscoa uma ocasião especial faz pouco ou nenhum sentido. E porque a minha mãe tinha já uma voz de coração partido por não estar comigo neste dia, obriguei-me a almoçar com o mano para lhe fazer a vontade e não passar o dia de Páscoa sózinha. O mano fez o mesmo. E resultou. Foi um almoço. Só um almoço. Mas soube por mil. Gosto dos meus. Dos meus eus. É bom saber que ele está lá. É bom saber que os que não estão presentes, só não estão porque não podem. E é bom saber que alguém não esteve presente apenas porque não se preocupou em estar. É muito bom saber que está presente quem realmente quer estar. Gosto de ti, mano. Obrigada pela sublime companhia.tenho todo o direito

Tenho raiva, estou irritada, capaz de bater, estou cansada. Cansada de acreditar nos valores que me incutiram, no amor. Cansada de ter pensamento positivo, boas energias e chegar a lado nenhum. Cansada de ouvir os debitar disparates dos outros que falam como se dissessem alguma coisa importante. No dia a seguir esquecem o que querem ser e são apenas o que são. Cansada de acreditar nos disparates que me debitam. Já devia saber que valem apenas por um momento. Cansada de achar que posso contar com algumas coisas, com algumas pessoas. Cansada de acreditar que o amor não acaba só porque sim. Cansada de acreditar que pelo menos aquela pessoa é fiel a um sentimento. Apetece-me gritar. Apetece-me que alguém me abrace e me mostre que tenho coisas melhores em que me concentrar. Eu sei que tenho, mas não me lembro delas agora. Apetece-me só ser abraçada. Não me quero lembrar. Tenho o direito de estar irritada, tenho o direito de achar que a vida não é fantástica e que às vezes è perfeitamente cruel. Tenho o direito de ter vontade de mandar tudo ao ar. E tenho.
4.09.2006
conto de fadas?
Sempre fui a menina dos contos de fadas. Não, não gosto de vestidos cor-de-rosa com folhos. Gosto de acreditar que as pessoas não são todas iguais e que a infelicidade dos outros não tem que um dia vir a ser a nossa. E sempre acreditei que “o amor acontece”. Mesmo quando não falamos a mesma língua. Cresci com as mesmas ilusões e desilusões que todos os outros. Mas sempre subsistiu esta mania de acreditar que há excepções. Que as pessoas que se gostam podem respeitar-se. Porque amanhã as coisas mudam, mas é o respeito que nos mantém sãos. E a vida encarrega-se de nos dar referências. E as minhas crenças fortalecem com a sobrevivência das minhas referências. Traduzindo, há sempre alguém que nos permite acreditar que duas pessoas podem ser equilibradamente felizes, juntas. Estas referências fazem-me seguir em frente. Fazem com que não me acomode a uma situação que não me preenche. Que busque não menos do que mereço. E aos trinta anos não me preocupa ser solteira. Preocupar-me-ia viver uma situação na qual não acredito. Mas como tudo, somos falíveis. E um dia as nossas referências transparecem imperfeição. Um dia, o casal perfeito desaba. E nesse dia eu olho à minha volta mais do que nunca. Nesse dia eu tenho medo. E lembro-me que nada é perfeito. Que um dia vou sofrer outra vez porque somos, inevitavelmente, extremamente egoístas. E penso... porquê?4.07.2006
irritam-me

Irritam-me as pessoas que se queixam de trabalhar arduamente quando passam a manhã a beber café e nos brindam com um assunto urgente que tem que ser feito na hora como se tivessem esse direito. Irritam-me as pessoas que se queixam de trabalhar arduamente e passam metade do dia a discutir as medidas drásticas que implantariam na empresa se fosse delas. Irrita-me que arranquem os cabelos de tanto trabalho e saiam à hora em ponto, ao segundo. Irrita-me que critiquem a administração e se esqueçam que despediriam metade dos colegas se a empresa fosse deles. Irrita-me que pessoas sem habilitações achem que têm as soluções empresariais ideais para tudo. Irrita-me que pessoas que trabalham metade do que eu trabalho me macem com o seu cansaço. Irrita-me que a antiguidade seja um posto numa empresa onde o que conta é o esforço individual. Irrita-me que elogiem o meu trabalho constantemente e não me paguem para isso. Irrita-me que a mobília da casa veja os novos como uma ameaça. Irrita-me que não façam absolutamente nada para provar que garra, tem quem quer. Irrita-me a inércia. Que se acomodem à inércia. Irritam-me os incompetentes. Irritam-me os burros a quem temos que explicar o B-A-BA vezes sem conta.
longa metragem

Pensei vezes sem conta. Dei voltas e voltas. Interpretei, julguei, tirei conclusões, agi em conformidade, fiz uma longa metragem. Sem nunca me lembrar de perguntar. Ironicamente, a falta de coragem fez surgir a conversa. E o pouco que falamos fez-me perceber que podia ter perguntado, que devia ter perguntado, que a resposta era de longe melhor que a minha longa metragem. Não por ser a resposta ideal, mas por ser a resposta possível, a verdade. Que por um feliz acaso, foi a resposta ideal. Gosto de falar com quem fala pouco sobre sentimentos. Gosto que quem fala pouco o faça comigo. Hoje ri o dia inteiro. E percebi que gosto do que provoco nos outros. E percebi que posso perguntar. A resposta será sempre boa, se for sincera. Será sempre boa, se não for sincera. Porque aí posso escolher os meus eus. E mais vezes do que pensamos, a resposta é maravilhosa. Mesmo que não altere grandemente o nosso dia-a-dia. Impede-nos de protagonizar longas metragens.
4.01.2006
mulher sofre
Andava mortinha... Horas e horas da minha vida passadas em gabinetes de estética embrulhada em cera foram suficientes para me decidir. Fui fazer a minha primeira sessão de depilação definitiva. Talvez não seja o post ideal para estampar num blog, mas estou radiante com a idéia de me livrar deles. Sim, os pêlos. Castigo inerente à condição de mulher. Tomei coragem (juntei uns trocos valentes) é lá fui. Meninas... não é fácil! Eles publicitam a palavra indolor com o maior descaramento mas não nos dizem que o indolor é para quem NÃO está a fazer depilação definitiva. Suporta-se, é verdade, mas também é verdade que se torna difícil fugir dali com a roupa na mão. A rapariga que me trocidou dava-me exactamente as respostas que eu queria ouvir. Dói? Não. Falta muito? Não. Claro está que depois constatamos que não é bem assim, mas a mentirinha piedosa dá algum alento. Claro que a minha figura não era pomposa como a da senhora de lingerie cor-de-rosa. Claro que a rapariga que me deu infinitas descargas na pele o fez com a maior descontração do mundo e ainda "sorria" de cada vez que eu me contorcia. Mas no fim, deixei o salão com um sorriso na cara. Afinal, eles não são mais fortes que eu!
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